quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Petroleo e poder: algumas digressoes - Paulo R. Almeida

Petroleo e poder: algumas digressoes - Paulo R. Almeida

PETRÓLEO E POLÍTICA EXTERNA

Paulo Roberto de Almeida

Respostas a um acadêmico

1) Qual a sua opinião em relação à ausência de reconhecimento, principalmente por parte da sociedade brasileira, dos impactos e inovações tecnológicas trazidas pela indústria do petróleo. Porque isso ocorre?
PRA: Não é preciso muita elaboração para reconhecer que a sociedade brasileira carece de um bom nível educacional, e que a informação tecnológica é ainda muito restrita a um pequeno mundo de iniciados. Isso faz com que a maior parte das pessoas “compre”, por exemplo, as mensagens mistificadoras e enganosas do governo Lula sobre o pré-sal, assim como sobre o papel da Petrobras num sistema industrial-produtivo que deveria conhecer um debate fundamentado tecnicamente, embasado em dados consistentes, em análises precisas e apoiadas em dados econômicos e científicos. Mas nada disso ocorre, em parte pela incultura geral, em grande medida pela propensão deste governo em mentir, mas também em função da incapacidade de acadêmicos e cientistas em se comunicar com o público mais bem informado, em linguagem apropriada para manter um debate de alto nível sobre questões relevantes como essas. Infelizmente, o quadro é desalentador para os que pretendem impulsionar políticas públicas baseadas no interesse nacional, não em confabulações partidárias e ideologias anacrônicas.
2) De que maneira podemos esperar que se dê a relação brasileira com o petróleo, em longo prazo, após a descoberta do pré-sal? O petróleo pode voltar a ter uma posição central na sociedade, a despeito dos avanços do etanol?
PRA: A civilização moderna, ou contemporânea, ainda vive a era do petróleo, e mesmo que combustíveis alternativos venham a ocupar mais espaços na matriz energética mundial, o petróleo continuará sendo, durante muito tempo, a base de nossa civilização. Para isso remeto a meu artigo: Monteiro Lobato e a emergência da política do petróleo no Brasil. O Brasil estava se encaminhando para uma matriz mais limpa, e agora, infelizmente, volta a sujar a sua matriz com o petróleo do pré-sal. Diferentemente da maior parte dos analistas, não acho que ter petróleo abundante seja uma boa coisa; nunca é. Ter petróleo suficiente, certamente é uma boa coisa; ter petróleo invadindo a esfera produtiva e tornando a sociedade em rentista do petróleo é certamente uma evolução negativa. Já vimos isso nas marchas dos cariocas e prefeitos de cidades do Rio de Janeiro, para preservar inteiramente os royalties do petróleo, que eles gastam de forma irresponsável, de forma rentista. Isso é muito negativo. O que o Brasil tem de fazer é diversificar cada vez mais sua matriz e sobretudo desenvolver novas tecnologias de novas fontes, renováveis, não fósseis, de energia.
3) Com relação ao curto prazo, quais devem ser as estratégias políticas brasileiras após a descoberta do pré-sal, o país deve usá-lo como ferramenta de poder, principalmente na América do Sul?
PRA: Petróleo não é instrumento de poder e sim de corrupção, em primeiro lugar política e moral, depois econômica e produtiva. O Brasil deve desenvolver a integração energética na América do Sul, mas em bases de mercado, não com base em empresas estatais que respondem a critérios não econômicos nas decisões a serem tomadas. O Brasil era, muito tempo atrás, dependente do petróleo importado (não da própria região mas do Oriente Médio). Ele agora corre o risco de se tornar dependente do petróleo nacional, o que seria péssimo. Instrumento de poder é um conceito que não deveria existir nas relações do Brasil com os demais vizinhos regionais: o que o Brasil precisa desenvolver são laços econômicos de todo tipo para unir sua economia à dos vizinhos; o petróleo não é um bom caminho para isso, embora não se possa negar sua importância. O caminho é a liberalização do comércio em bases amplas, sobretudo com base na competição entre empresas privadas, não públicas.
4) No decorrer das décadas houve algumas mudanças na geopolítica da economia petrolífera mundial. Qual a expectativa do Brasil como produtor petrolífero, tendo em vistas suas recentes descobertas “Off Shore”? Na sua opinião, qual o posicionamento brasileiro na geoeconomia do petróleo nas próximas décadas?
PRA: O Brasil nunca será um grande ator na geoeconomia e na geopolítica mundial do petróleo. No máximo ele terá petróleo para o seu próprio abastecimento, e para algumas exportações, de preferência como derivado e produtos industriais da petroquímica, não como petróleo bruto. A menos que o Brasil descubra províncias petrolíferas verdadeiramente gigantescas, e se torne um exportador liquido, ele nunca será um grande ator, pois suas dimensões e crescimento vão certamente requisitar quase todo o petróleo produzido off-shore.
5) Que outros setores do país podem ser beneficiados por essas estratégias políticas e econômicas? (Caso as perguntas 3 e 4 sejam pertinentes)
PRA: Todas estas: a indústria petroquímica, a indústria de equipamentos de prospecção, de extração e transformação do petróleo e do gás, know-how geológico e sobretudo inovação e pesquisa científica em todas as áreas tocadas pela indústria do petróleo, que é um complexo muito grande, além do simples extrativismo primário. Na verdade, estamos falando aqui de todo um debate sobre a matriz energética brasileira, que é algo muito importante para ficar na mão de ignorantes como os que vimos, querendo misturar biodiesel com famílias pobres do Nordeste cultivando mamona. Apenas mentalidades toscas, militantes rudimentares poderiam juntar duas coisas absolutamente díspares, como são a matriz energética de um país e a existência de populações pobres vivendo em regime de subsistência. O Brasil abusa da faculdade de errar, de se enganar, de impulsionar políticas erradas, de gastar dinheiro público com políticas totalmente inadequadas, como a que se fez até agora com o biodiesel. O pior é que com isso se compromete também uma companhia importante como a Petrobras.
6) Quais são as principais diferenças entre as políticas externas do setor petrolífero brasileiro atual, e as políticas apresentadas pela futura presidente do Brasil, Dilma Roussef? Em que pontos a política do governo de José Serra seria diferente para o setor?
PRA: O governo, na verdade, não tem uma “política externa” para o setor do petróleo, ou se tiver é esquizofrênica. O governo passou todo o primeiro mandato tentando impulsionar o etanol, o biodiesel e os combustíveis alternativos nos foros internacionais, promovendo foros, discussões e conferências e fazendo propaganda do etanol brasileiro. Depois que se descobriu o pré-sal, o governo esqueceu completamente o etanol e passou a ser “gigolô do petróleo”, até considerando um possível ingresso na OPEP, o que seria uma bobagem monumental. A presidente eleita não tem políticas, até agora, e sobretudo não tem uma política externa para o petróleo; ela só teve propaganda, na frente doméstica, baseada num Fundo Social que supostamente vai distribuir a “riqueza” do pré-sal. Ela nada disse das mistificações contábeis que levaram à reestatização da Petrobras (parcialmente apenas), a pretexto de capitalizá-la. Acredito que um governo José Serra, também estatizante, deixaria o pré-sal no regime anterior de concessões, o que diga-se de passagem é um bom regime de divisão de riscos na exploração. Agora, a Petrobras fica com todos os riscos, o que é uma bobagem imensa.
A outra orientação do governo no setor é a política de nacionalização dos equipamentos e o direcionamento das compras no mercado nacional, o que pode ser negativo no plano microeconômico, e de toda forma distorce as regras do jogo, pois a Petrobras é obrigada a atuar com base em critérios políticos, não com base em requerimentos técnicos e critérios econômicos.
7) E na sua opinião, qual seria a forma ideal para o governo brasileiro dirigir sua política petrolífera perante o cenário mundial?
PRA: Apenas desenvolver uma política petrolífera sensata, guiada pelos impulsos de mercado, não determinada pela voracidade política em se apropriar da renda petrolífera para fazer distributivismo demagógico e negativo do ponto de vista da diversificação da economia brasileira. O fato é que o petróleo no Brasil sofre os influxos da produção de petróleo e de sua comercialização no plano mundial, mas a companhia Petrobras e a política interna de preços vem sendo manipulados pelo governo de forma totalmente contrária aos impulsos do mercado, o que é especialmente negativo. A Petrobras sofre com essas rédeas políticas que ela tem, sendo obrigada a seguir orientações absurdas no que se refere a preços, refinarias, decisões de exploração, compra de equipamentos, etc.
8) Uma questão que está sendo levantada na opinião pública internacional é se a Petrobras conseguirá gerenciar o 'boom' do setor petrolífero nacional, após várias descobertas de petróleo em águas ultraprofundas no litoral brasileiro. Qual a sua opinião?
PRA: Sim, mas a um custo enorme para ela, em relação ao antigo regime das concessões, que tinha os riscos repartidos com os investidores estrangeiros. A única conseqüência do novo regime absurdo imposto pelo governo é dar à Petrobras a responsabilidade primária por todos os campos, o que aumenta os riscos e a necessidade de investimentos, em valores incompatíveis com os seus recursos próprios e com os aportes do Tesouro, também, que está sendo obrigado a fazer maquiagens contábeis para esconder o endividamento efetivo. Por enquanto não existe um boom, mas apenas promessa de um boom, o que de toda forma pode ser negativo no plano estritamente econômico, pois vai deformar o perfil mais equilibrado do setor energético brasileiro.
Na verdade, não cabe à Petrobras gerenciar nenhum boom do petróleo, pois ela é apenas uma companhia de petróleo e de energia. Quem tem de gerenciar isso é o governo, mas de forma equilibrada, mantendo um dialogo de alto nível com todos os setores da sociedade, no Parlamento, nas universidades, com consulta a especialistas estrangeiros, enfim, com um amplo estudo, de fortes bases técnicas, sobre como gerenciar esses recursos de forma sustentável e equilibrada. O que o governo fez agora foi demagogia em torno do pré-sal, vendendo a pele do urso para políticos rentistas, antes de ter matado o urso, ou seja, ter extraído petróleo. A manutenção do regime anterior teria sido muito melhor para o Brasil e para a própria Petrobras.
9) Como esse fator pode afetar a imagem do país perante as outras nações? A profundidade das águas e a qualidade do petróleo podem ser fatores determinantes?
PRA: Não se trata de um problema técnico e isso não tem nada a ver com profundidade de águas ou o tipo de petróleo. O mundo tem todos os tipos de petróleo em regiões as mais diversas e tudo isso se integra em mercados dinâmicos, com demanda e oferta para todos os tipos em momentos que se interpenetram. O Brasil poderia participar da grande geopolítica do petróleo se o setor respondesse mais a impulsos dos mercados do que a determinações políticas, que tendem a distorcer as regras do jogo e os custos de todo o setor.
Em última instância, não cabe à Petrobras determinar todos os aspectos econômicos, políticos e sociais do petróleo no Brasil, e sim cumprir o seu papel de empresa pública. Hoje, ela está sendo manipulada politicamente com base em critérios eleitorais e partidários, o que é lamentável do ponto de vista da cidadania.
O único fator determinante no mundo do petróleo é permitir flexibilidade suficiente para as empresas do setor para que elas se adaptam a uma geopolítica sempre cambiante. Não existe nenhum motivo para que governos tenham um poder decisivo num mercado em que os preços do principal produto estão mudando todos os dias. Governos não são feitos para ficar jogando no mercado de futuros: governos são feitos para criar um bom ambiente econômico para o investimento privado. Desse ponto de vista, os exemplos que tem sido dados pelo atual governo do Brasil são amplamente negativos; eles aproximam um pouco mais o Brasil desses países rentistas do petróleo que conseguem ficar mais pobres, mais desiguais e mais deformados econômica e politicamente do que sem o petróleo.
Paulo Roberto de Almeida
(Shanghai, 6 de novembro de 2010)

Etanol, petróleo e matriz energética/Artigo

09/06/2010

Espaço Aberto

Marcos Sawaya Jank

A nossa velha cana-de-açúcar converteu-se na planta cultivada mais extraordinária que se conhece hoje para produzir combustíveis e bioeletricidade de baixo carbono. Trata-se da nova cana-de-energia, que nasceu com o ousado Programa Nacional do Álcool (Proálcool) nos anos 70, o qual impôs a mistura de etanol na gasolina, a ampla distribuição do produto nos postos de combustível e os veículos movidos a álcool puro. Nos anos 90, com a queda do preço do petróleo, o programa quase morreu. Mas renasceu em 2003, pelas mãos da indústria automobilística brasileira. Desde então, o Brasil converteu-se no maior laboratório de desenvolvimento de motores bicombustíveis do planeta, atingindo em 2010 a marca dos 10 milhões de veículos flex nas ruas. No ano passado, o consumo de etanol superou o de gasolina.

Ao mesmo tempo, começamos a produzir eletricidade do bagaço e das palhadas da cana-de-açúcar. Trata-se de uma fabulosa energia de reserva limpa e renovável, disponível perto dos centros de consumo elétrico nacional. O mais interessante é que ela é altamente complementar às hidrelétricas, pois se encontra disponível nos meses de safra de abril a novembro, exatamente o período de menor pluviosidade, em que os rios e reservatórios de água estão baixos. No entanto, só 22% das usinas de cana do País exportam energia para a rede elétrica brasileira, gerando apenas 2% do nosso consumo anual. Temos mais de 13 mil MW médios de energia elétrica "adormecida" nos canaviais do Centro-Sul, o equivalente a três usinas de Belo Monte ou 14% das necessidades nacionais em 2020. Um imenso potencial que precisa ser despertado!

Neste momento estamos entrando na terceira fase da história do etanol, quando ele deixa de ser uma experiência isolada do Brasil e passa a ser adotado em mais de 30 países. Esta terceira fase nasce do esforço global de redução dos gases de efeito estufa, que causam o aquecimento do planeta. Após dois anos de pesquisas, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) classificou o etanol de cana-de-açúcar como "biocombustível avançado", com 61% de redução comprovada nos gases de efeito estufa em relação à gasolina, um valor três vezes superior ao obtido pelo etanol de milho, que ficou com apenas 21% de redução.

Este valor considera, em primeiro lugar, o balanço de emissões desde o plantio da cana até o escapamento dos automóveis. Considera também os chamados "efeitos do uso direto e indireto da terra". O risco de desmatamento direto pela expansão da cana não ocorre mais no País. Mas também foi mensurado o efeito indireto, que seria o associado ao risco de a cana poder estar "empurrando" outras atividades agropecuárias para novas áreas e assim provocar, indiretamente, o desmatamento.

Enquanto a cana é renovável - e, portanto, infinita - e grande redutora de emissões, o petróleo é cada vez mais escasso e o maior responsável pelo aquecimento global. Isso sem contar esse terrível acidente no Golfo do México, com um gêiser submarino jorrando descontroladamente, como no início da história do petróleo, e provocando danos bilionários, que levarão décadas para ser neutralizados.

O acidente ocorreu há 50 dias e até aqui ainda não há solução à vista. Mas já se sabe que o mundo petroleiro vai passar por uma profunda metamorfose. É certo que o custo para extrair petróleo de águas profundas vai aumentar expressivamente, em razão do aumento dos seguros e de regulações muito mais rígidas.

Além disso, os "efeitos do uso direto e indireto" das águas oceânicas também precisariam ser corretamente avaliados, especialmente quando há riscos desconhecidos na exploração de petróleo em regiões que chegam a 7 mil metros de profundidade.

O fato é que a era do petróleo barato, definitivamente, acabou! Hoje a alternativa é um petróleo caro, armazenado em reservatórios de custo e risco elevados, que vai terminar sendo atirado na atmosfera, aquecendo o planeta. Não seria muito mais simples e inteligente produzir o mesmo carbono a partir da energia infinita do Sol, da água das chuvas, da riqueza dos solos, por meio da fotossíntese das plantas cultivadas, reciclando o carbono da atmosfera?

Obviamente, isso tem de ser feito com alta tecnologia, via ganhos de produtividade que poupem ao máximo a necessidade de uso adicional de terra. Como fizemos no Brasil, onde substituímos mais de 50% da gasolina com apenas 1% de nossas terras aráveis.

Segunda à noite os três principais candidatos à Presidência da República compareceram à cerimônia de entrega do Prêmio Top Etanol 2010, evento organizado pelo Projeto Agora - Agroenergia e Meio Ambiente, hoje o maior programa de comunicação e marketing institucional do agronegócio brasileiro, envolvendo oito associações sucroenergéticas e oito grandes empresas. E foram unânimes em reconhecer que o Brasil tem a obrigação de desenvolver políticas estáveis e coerentes que garantam o crescimento da participação de energias renováveis, como os produtos da cana-de-açúcar, na energética brasileira. Foram sugeridas medidas diversas, como a uniformização do ICMS sobre o etanol em 12% em todo o território nacional, o mesmo nível hoje aplicado ao nosso diesel, que, aliás, ainda tem baixíssima qualidade ambiental.

Medidas como essa não podem ser classificadas como subsídios, mas como reconhecimento das externalidades econômicas, sociais e ambientais desta indústria para a sociedade: diversificação energética, redução de gases de efeito estufa, redução de gastos com saúde pública, geração de empregos, inovação tecnológica e interiorização do desenvolvimento. Uma alternativa renovável que colocou o nosso país na vanguarda do planeta no campo da substituição de petróleo e do combate às mudanças do clima. Já vivemos a era da tração animal, a era do carvão e agora estamos começando a sair da era do petróleo. A era da energia feita com carbono reciclado via fotossíntese faz muito mais sentido!

PRESIDENTE DA UNIÃO DA INDÚSTRIA DA CANA-DE-AÇÚCAR (UNICA)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Brasil contesta regras europeias para o etanol

04/11/2010

Economia

Jamil Chade

Usineiros brasileiros atacam a proposta de lei da União Europeia para estabelecer critérios ambientais para a entrada de etanol no mercado europeu e pedem que parte do projeto seja abandonado. Ontem, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) questionou oficialmente a política de Bruxelas para o comércio do etanol e deixou claro que, se a UE seguir com seu projeto, o Brasil poderia levar o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC).
Nessa briga, os usineiros brasileiros ganharam o inesperado apoio de multinacionais europeias, como Shell e BP, que têm pesados investimentos no País.
A UE quer estabelecer uma lei que só permitiria a importação de etanol produzido de forma sustentável. O exportador brasileiro teria de provar que o etanol representa economia de pelo menos 35% nas emissões de CO2 em comparação com a gasolina. Na Alemanha, a exigência já começa a valer em 2011.

Por essas contas, o etanol de cana produzido no Brasil não seria afetado, já que a redução de emissões de CO2 seria equivalente a 71%. O que o Brasil teme é que esse número seja depois manipulado no Parlamento Europeu. "No Parlamento, não é a ciência que conduz o processo, é a política. O número final pode acabar sendo um leilão", afirmou o representante chefe da Unica para a União Europeia, Emmanuel Desplechin.

Os usineiros brasileiros criticam também os estudos feitos pela UE. Na opinião deles, a ciência não está madura para justificar uma nova legislação e os resultados do levantamento da UE mostram que as discrepâncias sobre o impacto ambiental do etanol são tão profundas que desacreditam o próprio estudo. "Qualquer política pública baseada em resultados tão contestáveis poderia ser facilmente questionada na OMC", alertou Desplechin.

Ontem, em um documento de 16 páginas entregue à UE, os brasileiros pediram formalmente a revisão do cálculo do impacto ambiental do etanol e o adiamento de qualquer imposição de leis. "Estamos ao lado do Brasil nesse ponto e achamos que a proposta da UE pode ser muito prejudicial para a construção de um mercado global de etanol", afirmou Luis Scoffone, vice-presidente da Shell para energias alternativas. Rob Vierhout, presidente da Associação de Bioetanol da Europa, admitiu que projeto da UE é falho. "O risco de briga na OMC é real." Ele chamou as exigências europeias de "prematuras".


Etanol pode ganhar com combate ao déficit fiscal

04/11/2010

Destaque Estados Unidos em crise

Embora avessos a medidas ambientais, republicanos tendem a cortar subsídios

Luiz Silveira
lsilveira@brasileconomico.com.br


O etanol e outras fontes de energia renovável sofreram uma derrota com a eleição de uma maioria republicana na Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, na última terçafeira,
mas o produto brasileiro pode até se beneficiar da nova configuração do Legislativo.


A maioria republicana na Câmara torna ainda mais remota a possibilidade de que seja aprovada uma legislação nacional de redução da emissão de gases causadores do efeito estufa,
que poderia estimular os combustíveis alternativos.


Mas o mesmo Partido Republicano calcou sua campanha eleitoral na redução do déficit fiscal americano, o que tende a passar pela diminuição dos subsídios à produção agrícola — incluindo o etanol. “O déficit fiscal é tão preocupante para os americanos quanto a inflação é para os brasileiros”, compara o representante-chefe da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Única) em
Washington D.C., Joel Velasco. O custo dos subsídios ao etanol são de cerca de US$ 6 bilhões por ano, segundo ele.


A predisposição republicana à redução dos subsídios poderá esbarrar no fato de o partido ter uma grande base ruralista, alerta Pedro de Camargo Neto, especialista em comércio agrícola internacional e presidente executivo da associação brasileira das indústrias de carne suína (Abipecs). “A bancada agrícola é predominantemente republicana e pode até querer o
livre comércio, mas quer subsídio”, avalia.


A redução dos subsídios para cortar os gastos públicos, portanto, pode ser um benefício indireto da legislatura de maioria republicana para o Brasil. Afinal, as dificuldades econômicas dos Estados Unidos tornam mais difícil que os parlamentares do partido exerçam sua posição histórica liberal. A grande prova de fogo será a renovação do Farm Bill, a legislação para o
apoio à agropecuária, em2012.


Califórnia
As eleições trouxeram ainda uma importante vitória para o etanol na Califórnia, onde os eleitores rejeitaram uma proposta de suspender o programa de metas de uso de energias renováveis até que o desemprego caísse a níveis normais no estado. A aprovação da medida seria um passo atrás na adoção dos biocombustíveis nos Estados Unidos, já que a Califórnia é o estado mais rico e mais comprometido com as energias renováveis.


Na Califórnia destaca-se ainda o fato de o estado ser um dos poucos redutos emque o Partido Democrata conseguiu sucesso nessas eleições. O governador republicano Arnold Schwarzenegger será sucedido pelo exgovernador democrata Jerry Brown. “A Califórnia equivale ao Brasil em consumo de combustíveis, e pode chegar a comprar 6 bilhões de litros de etanol brasileiro por ano até o fim da década”, diz Velasco.

Multinacionais investem em usinas de biodiesel no Brasil

04/11/2010

Negócios

Eduardo Magossi

As grandes tradings multinacionais de commodities estão descobrindo o mercado brasileiro de biodiesel. Em menos de duas semanas, gigantes como Cargill, ADM e Noble anunciaram investimentos na construção de usinas de biodiesel em várias regiões brasileiras. Também nas últimas semanas, a Brasil Ecodiesel anunciou que está unindo seus negócios com a Maeda Agroindustrial.

O ponto em comum entre todas essas operações é a facilidade de obtenção da soja. "Estas empresas não precisam buscar a soja fora de casa e não estão sujeitas às variações do mercado", explica o presidente da União Brasileira do Biodiesel (Ubrabio), Odacir Klein. Hoje, o óleo de soja representa perto de 80% da matéria-prima utilizada na produção de biodiesel.

A verticalização dessas empresas também indica uma preocupação em relação ao escoamento do óleo de soja resultante do esmagamento da soja em grão. "Já é fato que o mercado de carnes, tanto bovina quanto suína, está crescendo de forma cada vez mais intensiva e a utilização do farelo de soja como ração animal tende a crescer", informa Amaryllis Romano, economista da Tendências Consultoria.

Segundo ela, quanto mais farelo for produzido, mais óleo de soja ficará disponível. "A demanda doméstica por óleo é limitada e a entrada dessas tradings no mercado de biodiesel revela que elas estão montando uma estratégia para escoar este óleo de soja que, de outra forma, poderia ficar represado", diz. As exportações de derivados de soja do Brasil são limitadas pela Lei Kandir, que penaliza com impostos as vendas externas de óleo e farelo e beneficia a exportação do grão.

Investimentos. A Cargill anunciou a construção de usina para produção de biodiesel no Mato Grosso do Sul, com investimentos de R$ 130 milhões. A unidade entrará em operação em 2012 e funcionará em anexo à fábrica de esmagamento de soja da empresa, devendo produzir 200 mil toneladas de biodiesel por ano.

O Noble Group vai investir US$ 200 milhões em sua primeira indústria de esmagamento de soja e produção de biodiesel no País. A fábrica será em Mato Grosso e deverá ter produção anual de 200 mil toneladas. Com início das operações também esperado para 2012, a ADM vai construir sua segunda usina de biodiesel no País em Santa Catarina, com produção estimada de 164 mil toneladas. O valor do investimento não foi revelado.

A Brasil Ecodiesel, que até meados deste ano estava comprando de fornecedores todo o óleo de soja usado em sua produção, vai contar, agora, com a matéria-prima da Maeda Agroindustrial, grande produtor de soja e algodão, duas matérias-primas importantes para o biodiesel.

Para Klein, os investimentos em novas usinas indicam também que essas empresas acreditam que o atual represamento do mercado interno vai acabar. Atualmente, é obrigatória por lei a adição de 5% de biodiesel no diesel mineral, o B5, embora a capacidade instalada hoje no País seja suficiente para adição de 10%. "Essas multinacionais esperam um aumento da mistura no mercado interno brasileiro."

O Programa Nacional de Uso e Produção de Biodiesel do governo brasileiro previa inicialmente o B5 apenas em 2013. A adição de 5% foi adiantada em função da grande capacidade instalada do Brasil, hoje em torno de 5,1 bilhões de litros, mas demanda efetiva de apenas 2,4 bilhões de litros. "O setor precisa de um novo marco regulatório e esses investimentos externos indicam que a expectativa internacional é de que haverá um novo marco com aumento da mistura", explica Klein.


Legislação
Atualmente, é obrigatória por lei a adição de 5% de biodiesel no diesel mineral, o B5, embora a capacidade instalada hoje no País seja suficiente para adição de 10%.

Especialistas temem que petróleo controle economia nacional

04/11/2010

Brasil

Patrícia Campos Mello

A ênfase dada pela presidente eleita Dilma Rousseff à construção de refinarias para o petróleo do pré-sal foi criticada por especialistas do setor. Em entrevista coletiva, Dilma afirmou que as "refinarias são cruciais para o pré-sal, porque nós não podemos ser exportadores de óleo bruto".

Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), questiona a necessidade de construir tantas refinarias no País neste momento, e aponta para o risco de "venezuelização" do País, com concentração excessiva da economia brasileira na cadeia do petróleo. "Podemos acabar com capacidade ociosa, porque não sabemos ao certo quando é que teremos volumes significativos de petróleo no pré-sal", diz Pires.

Segundo ele, as refinarias sendo construídas no Maranhão, Pernambuco, Ceará, Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte vão dobrar a capacidade de refino, de 2 milhões de metros cúbicos por dia para quase 4 milhões. "Mas só teremos quantidade significativa de petróleo do pré-sal no fim do governo Dilma." Para ele, seria mais barato e eficiente reequipar as refinarias existentes para que haja menor necessidade de importação de diesel.

Dilma argumentou que é preciso abrir refinarias para que se aumente a margem de lucro, produzindo derivados do petróleo, de maior valor agregado. "Nós precisamos ter duas refinarias não por uma mania de grandeza, como algumas vezes a oposição falou da Petrobrás, mas por uma estratégia. Porque, quando se refina, isso permite entrar numa área delicadíssima, a petroquímica, em que o ganho é acima de 1.000%."

Pires discorda. "A margem de lucro no refino será muito baixa para a Petrobrás." Ele diz também que o excesso de refino pode prejudicar o etanol, combustível limpo, porque quando o mercado externo estiver em baixa, a Petrobrás vai inundar o mercado interno com gasolina, prejudicando a venda de etanol. "Ao dominar toda a cadeia do petróleo e nos focarmos nisso, vamos ver a "venezuelização" do País", diz.

Raul Velloso, especialista em finanças públicas, fez reparos às declarações de Dilma sobre redução da dívida. Dilma afirmou que a relação dívida-PIB pode cair para 38% no fim de seu mandato, e que os juros vão convergir para taxas internacionais, em cerca de 2%. "Não se pode falar em redução de juros sem explicar o que vai fazer com o gasto público", disse Velloso. "Por enquanto, ela só falou de aumento de salário mínimo, que pressiona as despesas públicas; sem corte de gastos, é impossível reduzir os juros."

Grupos estrangeiros terão 40% da produção brasileira de etanol até 2015

Grupos estrangeiros terão 40% da produção brasileira de etanol até 2015

04/11/2010

Negócios

Jamil Chade

Nos próximos cinco anos, 40% da produção brasileira de etanol estará nas mãos de estrangeiros. A projeção foi apresentada ontem pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) no Congresso Mundial do Etanol, que reúne em Genebra as maiores indústrias de biocombustíveis.

A projeção foi considerada por empresários como o melhor espelho da revolução silenciosa que sofre o setor no mundo. Após dois anos de uma crise sem precedentes, os produtores de etanol passam por uma profunda reestruturação. A liderança de aquisições e fusões, porém, não está nas mãos de grupos agrícolas, mas sim de grandes empresas petroleiras do mundo.

Ontem, Shell, BP, Petrobrás e outras multinacionais do setor de energia anunciaram que se preparam para fazer investimentos substanciais nos próximos anos no setor de etanol. Para elas, o biocombustível é a opção "mais realista" para complementar o petróleo nos próximos 30 anos e, nessa estratégia, o Brasil é o principal alvo.

"Para as multinacionais de energia, o etanol é visto como uma fonte de energia mais acessível que o petróleo no Ártico, as reservas nos países da Opep ou a gasolina da Venezuela", admitiu James Primrose, chefe de estratégia da BP Biocombustíveis. "Estamos vendo a entrada das multinacionais do petróleo no etanol e isso promoverá uma mudança enorme no setor", disse Alexis Duval, diretor financeiro da francesa Tereos.

"Na prática, estamos vendo o nascimento de um novo setor", disse Christoph Berg, gerente da consultoria F.O. Licht. O Brasil, segundo consultores, multinacionais e usineiros, está sendo o campo de provas dessa transformação. Em cinco anos, cem usinas se somaram às trezentas que já existiam no País e os investimentos chegaram a US$ 20 bilhões. O resultado foi uma ampliação da participação do capital internacional no setor considerado até pouco tempo como carro-chefe da diplomacia comercial do presidente Lula.

"Em 2007, apenas 7% do setor do etanol do Brasil estava em mãos estrangeiras. Nossa previsão para 2010 era de que essa taxa chegaria a 12%. Mas o que vimos foi que o número hoje já é de 22%", disse o representante chefe da Unica para a União Europeia, Emmanuel Desplechin.

Essa tendência vai continuar e até se aprofundar. "Nos próximos cinco anos, a projeção é de que 40% do setor seja já internacionalizado no Brasil", destacou. Segundo ele, os investimentos desde 2005 permitiram uma expansão da produção do etanol de 70% no País.

Consolidação. Outra tendência que deve ser acelerada é a da consolidação do setor. O processo ganhou velocidade nos últimos dois anos diante da crise e do fato de que muitos usineiros não sobreviveram. Mas, hoje, os dez maiores grupos que atuam no Brasil controlam apenas 28% da produção.

A Petrobrás já prometeu investir US$ 3,5 bilhões em etanol até 2014, principalmente em alianças com grupos estrangeiros. Segundo Marcelo Messeder, diretor da Petrobrás Biocombustível, a meta é a de ter uma expansão na produção de 193% em quatro anos. Já as exportações aumentariam 135% nesse período.

Um dos contratos fechados neste ano pela Petrobrás foi com a Tereos. Ambas investirão US$ 2,4 bilhões até 2013 para transformar a Guarani, controlada pela Tereos, em uma líder no setor.

Outra gigante que aposta no etanol no Brasil é a Shell, que investiu US$ 12 bilhões em uma joint venture com a Cosan para criar a primeira multinacional do setor. Em entrevista ao Estado, Luis Scoffone, vice-presidente da Shell para energias alternativas, admitiu que a multinacional busca novas usinas para comprar. Segundo ele, o investimento anunciado até agora é apenas "uma parte da história". "Nossas metas vão bem além do Brasil", afirmou.